A reunião da SBAV/RS de 24 de abril de 2026 foi organizada pelo confrade Leandro Rovani e teve como tema “A versatilidade dos cortes com Cabernet Sauvignon”. Na ocasião foi distribuído o seguinte texto, preparado pelo Leandro:

A Cabernet Sauvignon é o produto de um cruzamento genético natural entre as principais variedades de uva de Bordeaux, Cabernet Franc e Sauvignon Blanc, conforme perfil de DNA realizado na Califórnia em 1997, sendo que, apesar do cruzamento ter ocorrido apenas nos últimos séculos, a fama e o domínio globais da variedade são inegáveis.

Conforme refere a Wine Searcher, “o Cabernet Sauvignon é encontrado mundialmente – em grande parte devido à sua combinação valorizada de aromas de frutas pretas, taninos estruturais e acidez fresca”, referindo ainda que, além dos conhecidos blends com Merlot e Cabernet Franc, tem sido comum ver assemblages com Malbec, Petit Verdot, Carmenère e Shiraz. Uma mistura de Cabernet Sauvigon e Tempranillo vem se tornando comum na Espanha e experimentada na América do Sul. Também é frequentemente encontrada a mistura com Sangiovese nas IGTs toscanas e na costa de Bolgheri.

Meu fascínio pela diversidade de comportamento das castas em diferentes terroirs já é algo conhecido pela maior parte dos meus prezados confrades da SBAV-RS, mas dessa vez não estaremos falando de varietais, mas sim de blends com a casta provavelmente mais utilizada no mundo para esta finalidade, para tentar apurar, ainda que por pequena amostragem, a forma que diferentes vinícolas de diferentes regiões e países entendem ser a melhor manifestação do vinho ao “cortar” esta casta emblemática.

Todos os vinhos provados nesta noite, exceto o primeiro, serão cortes de Cabernet Sauvigon; o espumante e o vinho de sobremesa não foram fáceis de encontrar. O “padrão” da degustação será um francês de Margaux, homenageando a origem bordalesa dos cortes da casta justamente com um vinho do Médoc. O prato à mesa que irá harmonizar com os tintos será apresentado pelo Chef Vianna, trazendo a clássica combinação de Bordeaux com carne de cordeiro.

Para iniciar os trabalhos, encontrei algo que considero extremamente interessante: aquele que seria o descendente do espumante mais antigo do mundo; não tem relação com a Cabernet Sauvignon, exceto pelo fato de que é francês, mas vale a descoberta.

Espumante Sieur d’Arques Saint-Hilaire Blanquette de Limoux Brut 2019 – Languedoc-Roussillon, França – ABV 12%.

Este é o vinho espumante mais antigo da França, criado pelos monges beneditinos da Abadia de Saint-Hilaire há mais de 450 anos (1531). Feito pelo método tradicional, tem relação custo-benefício excepcional, costumando ser classificado pelos críticos como o melhor espumante Blanquette de Limoux disponível. (https://www.wine-searcher.com/find/st+hilaire+brut+blanquette+de+limoux+languedoc+roussillon+france/1/brazil?shoptype=1%2C0#t2).

Blanquette de Limoux é uma denominação de origem controlada (AOC) para vinhos espumantes, elaborados com uma segunda fermentação na garrafa, provenientes de uma região do sul da França, no sopé dos Pirenéus, ao sul de Carcassonne. Limoux é uma cidade central nessa região e, há séculos, dá nome aos vinhos espumantes locais. ‘Blanquette’ é o nome local da casta Mauzac, a partir da qual estes vinhos são predominantemente produzidos, sob pena de não poderem ter essa denominação, mas serem chamados apenas de Cremant de Limoux. Curiosamente, existem outras três castas locais que por vezes são conhecidas como Blanquette (Bourboulenc, Clairette e Ondenc). Nenhuma delas, porém, é utilizada na produção dos vinhos Blanquette de Limoux.

O componente Mauzac do blend é complementado por proporções variáveis de Chenin Blanc e Chardonnay. As leis da denominação de origem foram ajustadas para permitir que os produtores incluíssem uma proporção maior de Chenin Blanc e Chardonnay. Isso teve como objetivo alinhar os vinhos aos estilos modernos e à demanda do consumidor.

Os vinhedos da região estão situados em altitudes mais elevadas e em climas mais frescos do que em qualquer outra denominação de origem controlada (AOC) do Languedoc-Roussillon. Também estão mais distantes da influência do Mar Mediterrâneo. Dentro da região, existem zonas climáticas distintas, determinadas por fatores como altitude, tipos de solo e a influência do Atlântico ou do Mediterrâneo. Essa variação faz com que Limoux e a região circundante produzam um estilo de vinhos completamente distinto de outras áreas do Languedoc.

Composição: 90% Mauzac, 5% Chenin Blanc, 5% Chardonnay

No olfato apresenta aromas cítricos e de maçã, com toques de levedura e fermento. No visual é amarelo-palha e no paladar, é leve e refrescante, revelando textura cremosa e equilibrada.

Espumante Bodega Sossego Camp4ña Rosé Brut – Campanha Gaúcha, Brasil – ABV 12,3%.

Espumante produzido na Campanha Gaúcha com uvas Cabernet Sauvignon e Chardonnay, pelo método tradicional, com maturação de 12 meses. Coloração rosé delicada, perlage intenso. Aromas frescos e elegantes de frutas vermelhas. Em boca, é cremoso com acidez equilibrada e bem refrescante.

A Bodega fica localizada na localidade da Queimada, município de Uruguaiana/RS a poucos quilômetros do Uruguai e da Argentina, contendo alguns dos vinhedos mais continentais do Brasil. Os parreirais convivem com o gado Braford e o cultivo das pastagens em solo argiloso-rochoso, com invernos frios, verões quentes/secos e alta insolação, somada a uma ótima amplitude térmica.

A harmonização sugerida como ideal é com frutos do mar ou pratos leves em geral.

Aurora 95 Anos – Serra Gaúcha – Brasil – ABV 13%.

Blend comemorativo, garrafas numeradas, criado através de um corte de uvas e safras, expressando a diversidade de solos e climas da região. Apresenta coloração vermelho rubi intenso com reflexos alaranjados, aromas com notas de frutas negras, especiarias como cravo e baunilha, frutos secos, além de chocolate e mentol. No paladar é um vinho que se revela equilibrado, com acidez vibrante, taninos macios, álcool e corpo médio e grande persistência, além de um retrogosto de frutas negras maduras, tabaco, baunilha e mentol. Breve estágio em tanques de aço inox e barricas de carvalho.

Composição: 51% Cabernet Sauvignon, 32% Merlot, 17% Tannat, 2021, 2022 e 2024.

Acompanha bem carnes grelhadas, churrasco, aves escuras, massas e risotos com molhos intensos ou a base de ervas, pizzas a base de carne e queijos médios e intensos.

Clos du Jaugueyron – Nout 2016 – Médoc, Margaux, França – ABV 12,5%.

Aos 20 anos, Michel Théron deixou Minervois e os vinhedos de seus pais para se estabelecer no Médoc, onde conheceu Stéphanie Destruhaut. Juntos, eles administram 8 hectares em 16 parcelas nas denominações de origem Margaux e Haut-Médoc. A agricultura orgânica (certificada em 2012) e biodinâmica foram gradualmente incorporadas a todas as parcelas. As vinhas da propriedade estão localizadas principalmente em Sur Macau, para Haut-Médoc, e Sur Arsac, para Margaux; perfis geológicos diversos e climas diferentes.

As uvas são colhidas manualmente, em bom ponto de maturação, com baixo uso de enxofre na adega. Os tanques de diferentes capacidades permitem isolar os vinhedos e as variedades de uva. A vinificação é realizada em tanques de concreto e os vinhos são então amadurecidos em barricas por cerca de 12 meses e, em seguida, novamente em tanques antes do engarrafamento.

Nout é um blend de Merlot (55%) e Cabernet Sauvignon (45%) com idade média de 29 anos, utilizando-se, portanto, vinhas com idade média menor do que o blend principal – Clos du Jaugueyron. O amadurecimento ocorre sobre as borras finas durante 12 meses, em 85% de barricas novas. “Nout” é a deusa do céu na mitologia egípcia.

O vinho é conhecido pelo seu perfil elegante, natural e equilibrado, apresentando frutas escuras intensas, com notas terrosas de tabaco no palato, com corpo médio. O retrogosto é fresco, com leves toques de anis e longa persistência.

Vasse Felix Filius Cabernet/Merlot 2018 – Margaret River, South West Australia – ABV 14%.

Distribuído pela Mistral, trata-se de um blend moderno e regional com a elegância e estrutura do Cabernet clássico em um estilo alegre. A Merlot contribui para um vinho suculento com taninos sedosos e notas de frutas vermelhas e negras, é um tinto bastante elegante e fácil de gostar.

Aromas de especiarias, cereja preta e chocolate amargo. Vinho potente com vivacidade, sabores de amora e taninos macios.

Práticas orgânicas. 100% leveduras selvagens, 50% Cabernet Sauvignon, 35% Merlot, 13% Malbec e 2% Petit Verdot. Maturação em barricas de carvalho francês de 1 a 5 anos por 12 meses.

Acompanha carnes de caça, vermelhas e defumadas.

Vik Milla Cala 2021 – D.O. Vale do Cachapoal, Chile – ABV 14%.

Proveniente da região de Millahue, produzido pela Vinícola Vik Wines.

De coloração vermelho rubi com reflexos violáceos, esse vinho traz consigo aromas de frutas vermelhas, toque mineral, frutas negras, amora, framboesa e frutas secas, com paladar estruturado, de taninos macios, frutado e com bom volume em boca.

Produzido em solo granítico, profundo, poroso e com boa drenagem. Clima mediterrâneo quente, porém com temperaturas máximas limitadas pela influência marítima. Composição: 61% Cabernet Sauvignon, 23% Carménère, 8% Syrah, 7% Cabernet Franc, 1% Merlot. Descansou por 20 meses em barris de carvalho francês.

Harmonização sugerida: Agnolotti de foie gras em consomê de vitela, queijos maduros.

Aurora Colheita Tardia Tinto 2024 – Serra Gaúcha – Brasil – ABV 12%.

Produzido pela quase centenária Cooperativa Vinícola Aurora, este vinho é o resultado da escolha de variedades Cabernet Sauvignon 50% e Alicante 50% com excelente maturação, proporcionando um vinho de cor intensa e tonalidade violácea. Ele conta com aroma de tipicidade marcante, notas de cacau, menta, uvas passas, frutas vermelhas como mirtilo e jabuticaba. No paladar, possui gosto doce, encorpado e persistente, sendo um vinho com muito equilíbrio entre álcool, acidez e doçura.

A harmonização indicada como ideal é com sobremesas como torta de chocolate, cheesecake de frutas vermelhas, mil folhas e Crème Brûlèe.