A reunião da SBAV-RS de 7 de agosto de 2026 fo organizada pelos confrades Leandro Rovani e Jorge Ducati, e teve como tema “Italianos e brasileiros de mesma casta”, tendo o seguinte texto de apoio:
Caros confrades, se há duas coisas que não nos faltam na SBAV das Quintas-feiras, essas são ousadia e curiosidade, as quais são a mola propulsora para impulsionar o incremento de nossos conhecimentos sobre vinho. Imbuídos desse espírito, nosso Presidente Ducati e este neófito conhecedor resolveram estender a experiência com vinhos italianos, iniciada com uma degustação apresentada há poucas semanas, na tentativa de compreender um pouco e na prática até que ponto vinhos nacionais podem, potencialmente, confrontar em qualidade os vinhos de castas produzidas em seus terroirs clássicos. A pretensão não é de comparar, com rigidez, vinhos de mesmo preço, mas sim aferir se há qualidade promissora em nossos exemplares nacionais.
As castas trazidas hoje serão Garganega, Barbera e Lagrein nos vinhos tranquilos, bem como Glera para os espumantes. Além destas, na sobremesa, Teremos um Marsala, acompanhando um quitute tradicional siciliano
(https://www.youtube.com/shorts/RgIovWn7J0E).
Sobre os vinhos brasileiros, dois deles são de produção do nosso confrade Jorge Ricardo Ducati, que é assim apresentado por Marcio Oliveira, do Blog Vinotícias
(OMEGA CENTAURO CABERNET SAUVIGNON 2012 – VINHEDOS EM MARIANA PIMENTEL, RIO GRANDE DO SUL – BRASIL – V):
O professor Jorge Ricardo Ducati, consagrado nome da vitivinicultura brasileira, é um exemplo. Implantou seus vinhedos no município de Mariana Pimentel, a aproximadamente 90km de Porto Alegre, em plena região metropolitana da capital gaúcha. Numa área de meio hectare, geomorfologicamente muito próximo ao terroir de Encruzilhada do Sul, que já desponta como uma das melhores regiões vitivinícolas do país ele implantou as castas tintas Cabernet Sauvignon, Merlot, Barbera e Brunello (Sangiovese), além da branca Garganega.
O projeto de Jorge Ducati tem a parceria do vinhateiro Vilmar Bettú. O primeiro cuida pessoalmente da viticultura e o segundo da elaboração dos vinhos. Aliás, essa é uma parceria com linguagem própria.
Ducati é um doutor em astrofísica e Bettú é engenheiro mecânico e professor de Física! A proposta é criar vinhos muito bem cuidados, do vinhedo à cantina, que espelhem o terroir. Então, esses vinhos carregam os saberes de Ducati e Bettú, além das expressões de solo e o clima de Mariana Pimentel.
(…) Os vinhos Ducati+Bettú são longevos. Como diz o próprio Jorge Ducati, “vinho é uma experiência estética.” Não surpreende, então, que seja ele, o viticultor, quem escreve e cola os rótulos.
Das castas referidas, teremos o prazer de provar, já maduros, vinhos de Garganega e Barbera do Ducati.
Robert Parker, ao falar sobre o Barbera no Piemonte, comentou na 6ª edição de seu guia, finalizada em 2002 que “Antigamente, ele era excessivamente ácido, agressivo e oxidado — e custava uma ninharia. Os Barberas de novo estilo, frequentemente envelhecidos em carvalho francês 100% novo, exibem uma cor roxa saturada, excelente fruta e uma super-riqueza que servem para equilibrar sua acidez naturalmente alta. Os melhores Barberas vão custar aos consumidores entre US$ 25 e US$ 75, portanto, seu mercado potencial é microscópico. Mas uma amostra dos melhores das safras de 1998, 1999 e 2000 deixará uma impressão duradoura. Mas fique avisado: na maior parte, esses vinhos precisam ser consumidos dentro de 4 a 8 anos da safra, independentemente de quão rico seja o seu sabor.” (Em livre tradução – Parker’s wine buyer’s guide – 6th ed. / Robert. M. Parker Jr. with Pierre-Antoine Rovani – Simon & Schuster Paperbacks – NY – 2003).
Desafiaremos Parker hoje ao demonstrar que, ao menos se produzido no terroir de Mariana Pimentel, se não no Piemonte, o Barbera amadurece bem.
Quanto ao Garganega, posso afirmar por experiência própria que essa delicada uva branca amadurece muito bem quando produzida no terroir de Mariana Pimentel (quinze anos só deixam o vinho melhor). Hoje, provaremos um raro e “jovem” exemplar de 2017, dentre as 19 garrafas de Garganega produzidas naquela safra pela dupla Ducati/Bettú.
Em sua origem, na DOC de SOAVE (Vêneto), a Garganega apresenta elevada acidez, corpo leve, mediano álcool e fruta discreta, com aromas dominantes de limão siciliano, melão, amêndoa verde e um toque salino.
Segundo comentário do site da Mistral Importadora, a uva Lagrein é uma variedade antiga e que se adapta com maior facilidade na região do Alto Adige, muito ensolarada, no nordeste da Itália, produzindo vinhos encorpados, fortes e aromáticos, com cor escura e densa, estrutura ácida e acabamento ligeiramente adstringente. Assim comenta o sítio em questão (Lagrein: conheça os melhores vinhos da uva Lagrein – Mistral): Com baixos rendimentos e alta tanicidade, a uva Lagrein suscitava alguns problemas aos produtores de vinho, no entanto, com o decorrer dos anos e a modernização das técnicas de vinicultura, a variedade passou a produzir alguns vinhos muito apreciados ao redor do globo. Dando origem principalmente a vinhos varietais, a Lagrein é permitida por duas denominações de origem controlada (DOC) – Trentino e Alto Adige. As encostas da região do Alto Adige são ensolaradas e oferecem um excelente terroir para as uvas desta casta. Os exemplares elaborados a partir dessa variedade de uva são os mais significativos para a região, conhecida principalmente pela produção de excelentes vinhos brancos. A Lagrein é permitida na composição de outros bons rótulos do Alto Adige, em especial, ao lado das uvas Schiava, Cabernet Sauvignon e Merlot. Enquanto as montanhas do nordeste da Itália são a casa da uva Lagrein, existem também algumas vinhas dessa variedade cultivadas nas regiões do Novo Mundo. A Austrália tem se destacado no cultivo de castas regionais da Europa, dos quais a Lagrein encontra-se entre uma delas, nas regiões de Victoria’s Macedon Ranges e Adelaide Hills. Há também excelentes vinhos Lagrein produzidos na Califórnia.
Nos espumantes, provaremos a conhecida Glera, popularmente chamada de Prosecco, embora essa denominação diga respeito à sua principal denominação, que fica no Vêneto (também há produção significativa no Friuli). Naquela região são produzidos o Prosecco (mais comum), o Prosecco Superiore (padrões de produção mais rígidos), Conegliano Valdobbiadene e Colli Asolani (onde são produzidos Prosecco Millesimati – safrados).
Às taças!!!
Espumante Salton Prosecco – Serra Gaúcha, Brasil – ABV 11%.
- 100% Glera, produzido pelo método charmat. Açúcares 14 g/l | PH 3,15 | Acidez total 90 meq/l.
- Visual Brilhante, de coloração amarelo-esverdeado, com abundante desprendimento de finas borbulhas. Aroma de frutas de polpa branca, como pera, banana e pêssego, além de notas cítricas. Corpo leve; paladar cremoso, leve e refrescante.
- Harmoniza com canapés, risotos leves e carnes brancas.
Corvezzo Vezzo Prosecco DOC – Vêneto, Itália – ABV 10,5%.
- 85% Glera e 15% de variedades de uva permitidas pela regulamentação, charmat.
- Amarelo palha, perlage fina e persistente. O olfato se abre elegantemente, com notas delicadas de flores de acácia, seguidas por toques frescos de maçã e pera. O sabor é fresco e harmonioso, com final longo.
- Harmoniza com sashimi de salmão, sushi de vegetais, queijos frescos e lasanha vegetariana com abobrinha e ricota.
Ducati Garganega – Mariana Pimentel – 2017 – Brasil – ABV 12%.
- Foram produzidas apenas 19 (dezenove) garrafas desse varietal, uma vez que embora 2017 tenha sido um bom ano para as uvas em Mariana Pimentel, de boa produção, tal não ocorreu com a Garganega, de cujas parreiras houve baixa produção.
- As uvas foram colhidas e processadas manualmente. A fermentação aconteceu em garrafão de vidro.
- Sem passagem por madeira.
Enoitalia SI Soave DOC – 2023 – Vêneto – Itália – ABV 12,5%.
- As uvas Garganega são colhidas manualmente e suavemente prensadas. O suco das uvas é fermentado em tanques de aço inoxidável a temperaturas controladas para preservar os aromas frescos e frutados da variedade Garganega. Após a fermentação, o vinho passa por um período de maturação, sendo engarrafado e liberado após breve envelhecimento na garrafa. Projetado para ser bebido jovem.
- 100% Garganega. Açúcar: 1 g/l. Acidez: 6 g/l.
- Coloração amarelo palha. No nariz, oferece aromas delicados de flores brancas, como acácia e camomila, além de notas frutadas de maçã verde, pêra e um toque cítrico de limão. No paladar, é leve e fresco, com uma acidez vibrante. Os sabores refletem as notas frutadas percebidas no aroma, com destaque para a maçã verde e o limão, complementados por um final refrescante e harmonioso. Temperatura de serviço: Entre
8°C e 10°C.
- Harmoniza com pratos delicados e de sabor sutil (saladas frescas, frutos do mar e peixes grelhados), bem como entradas como bruschettas de tomate e manjericão, além de queijos frescos como ricota e mussarela.
Ducati Barbera – Mariana Pimentel – 2008– Brasil – ABV 12%.
- Foram produzidas apenas 111 (cento e onze) garrafas desse varietal, porque as produções no local são realmente pequenas, uma vez que todos os varietais são produzidos em cerca de meio hectare. 2008 foi um ano melhor do que a média em Mariana Pimentel, com boa produção.
- As uvas foram colhidas e pisadas. A fermentação aconteceu em cuba de aço inox.
- Sem passagem por madeira.
Società Agricola Tenuta Santa Caterina S.R.I. – Vignalina Barbera D’asti DOCG Superiore 2020 – Piemonte – Itália – ABV 15%
- Localizada no coração de Monferrato, a propriedade foi registrada em 1737 e durante séculos a produção de vinho foi somente para uso familiar, junto com outras culturas.
- 20 hectares de vinhedo, com a prática da cultura orgânica e simbiótica rigorosamente respeitadas, tratando os vinhedos com fertilização natural e interagindo com outras plantas para o trabalho da areação do solo. Não são permitidos o uso de substâncias herbicidas e não naturais. As variedades plantadas são predominantemente as autóctones da região, tais como Grignolino, Freisa, Nebbiolo e Barbera.
- As uvas 100% Barbera são cultivadas no vinhedo “Podere dei Mossetti”. O nome desta Barbera é uma homenagem a mãe e a bisavó de Guido Carlo Alleva, ambas com nome Lina. Colheita manual no final de setembro, fermentação por 10 dias com temperatura controlada entre 26-28ºC. Maturação em tonel de carvalho por 10 meses e outros 6 meses em garrafa antes de ser comercializado.
- Harmoniza bem com carnes assadas ao forno, massas com cogumelos refogados, embutidos, carnes de cordeiro com molhos de ervas aromáticas.
Vinícola Barcarola Lagrein 2020 – Vale Aurora – Serra Gaúcha – Brasil – ABV 14,5%.
- De uvas da cepa Lagrein cultivadas nos próprios vinhedos da Vinícola Barcarola, utilizando as mais avançadas técnicas de cultivo e de vinificação. Tipo de solo:
Basáltico-argilo-arenoso Produção: 2,5kg por planta Safra: 2020 Teor Alcóolico: 14,5% Vol. Quantidade elaborada: 2.800 garrafas numeradas
- De coloração vermelho rubi, delicadamente fino, persistente, harmônico e convidativo, aroma intenso e frutado, com notas acentuadas de pequenas frutas vermelhas como framboesa e mirtilo, com fundo de ervas aromáticas de montanhas evoluindo para aromas de geleia de ameixa.
- Acompanha bem carnes brancas, massas, lasanha ao forno, ravióli, risotos e queijos.
Tieffenbrunner Turmhof Lagrein DOC – Sudtirol – Alto Adige – Itália – ABV 13,5%.
- O fator humano é fundamental para produzir tais “Vini Eroici”. A história da família em Valle d’Aosta inicia quando ainda com o domínio do Ducato de Savoia (França), algumas famílias de Savoia e da Bourgogne foram enviadas para o Valle d’Aosta, para repopular a região que tinha sido dizimada pela peste de 1630. Cultivar uvas ainda é um desafio diário, os vinhedos são antigos, muitas vezes murados e muito íngremes, muito difíceis de serem trabalhados, por isso, são considerados grandes vinhos de montanha. Em 2011 obtiveram a certificação de agricultura biológica.
- As uvas 100% Lagrein são colhidas manualmente na melhor parcela da propriedade entre 250 e 350 metros de altitude, em vinhas com em média 57 anos, de ótima exposição solar. Fermentação em cubas de cimento com maceração. Amadurecimento de 75% do vinho em barrica e 25% em toneis de madeira durante 10 meses, finalizando em cimento por mais 2 meses e 5 meses de afinamento em garrafa.
- Harmoniza com pratos com carnes grelhadas, feijoada, cordeiro, caça como javali e queijos maturados.
Cantine Pellegrino Marsala Fine I.P. DOC – Semisecco – Sicília – Itália – ABV 17%.
- Vinícola com mais de 135 anos de história na ilha da Sicília, une tradição, modernidade e um conhecimento profundo do seu terroir. Os vinhedos da Cantine Pellegrino estão localizados no oeste da Sicília, região com grande variedade de microclimas. Nas caves históricas de Marsala, o vinho fortificado homônimo é refinado nas suas diversas variações, produzido a partir de uvas típicas da região.
- Elaborado com as uvas típicas sicilianas Grillo, Catarratto e Inzolia.
- Tem complexidade aromática, revelando notas de frutas secas, casca de laranja, mel, avelãs, baunilha e carvalho. Na boca, é intenso, equilibrado, bem estruturado, quente e macio, persistente, saboroso e adocicado.
- Um vinho tradicionalmente servido como aperitivo acompanhando muito bem queijos azuis, como Roquefort e Gorgonzola, pratos mais salgados, proporcionando um agradável contraste, ou com sobremesas.
- Este é um Marsala Fine, classificação que indica um mínimo de 12 meses de amadurecimento em barricas de carvalho.
Ducati Barbera – Mariana Pimentel – 2009 – Brasil – ABV 12% (RESERVA).
- Foram produzidas apenas 118 (cento e dezoito) garrafas desse varietal. 2009 foi um ano melhor do que a média em Mariana Pimentel, com boa produção. Na Serra do Sudeste a produção foi melhor do que na Serra Gaúcha.
- As uvas foram colhidas e pisadas. A fermentação aconteceu em cubas de aço inox.
• Sem passagem por madeira.