A reunião da SBAV/RS de 20 de março de 2026 foi organizada pelos confrades Leandro Rovani e Jorge Ducati, e teve como tema a casta Viognier. Para a ocasião, o confrade Leandro preparou o seguinte texto:
A mais elegante de todas as uvas é a Viognier – não segundo este modesto apreciador, mas segundo afirma Jancis Robinson, em sua obra “Como degustar vinhos” (São Paulo: Editora Globo S/A, 2010, p. 121). Já no livro “A bíblia do vinho” (Rio de Janeiro : Ediouro, 2003, p. 63), Karen MacNeil, na primeira referência à casta, prega que certa vez um restaurateur de Los Angeles descreveu assim o vinho de Viognier: “Se um bom riesling alemão lembra um patinador no gelo (veloz, vigoroso, com uma lâmina cortante) e o chardonnay parece um boxeador meio peso pesado (forte, sólido, poderoso), então o viognier deveria ser descrito como uma ginasta — bela e perfeitamente moldada, musculosa porém com soberba agilidade e elegância.”
É hora da Confraria das Quintas da SBAV-RS, que se reúne às Sextas, fazer justiça a esta casta. Mas não fomos os primeiros a esquecê-la! Após o evento da Phylloxera, no século XIX, pouco interesse houve pela vinífera e, por volta do final dos anos 60 e início dos anos 1970, diz-se que estava quase extinta, resumindo-se a cerca de oito hectares. Para nossa sorte, desde então, passou a despertar interesse no Rhône tanto como varietal, quanto para corte com Syrah na Côte-Rôtie, apelação na qual pode representar até 20% do vinho na garrafa. Desde então, passou a ser plantada no Languedoc-Roussillon (a França representa cerca de 60% da produção), espalhando-se pelo mundo, especialmente nos EUA (Califórnia e Virgínia), na Austrália (também em corte com Shiraz), na Itália, Chile, Argentina, África do Sul e também no Brasil e Uruguai.
Sua origem é francesa, no Vale do Rhône, embora haja menções minoritárias de que sua origem possa ser croata.
A principal região produtora no mundo em termos de qualidade são as colinas de Condrieu (imagem acima), ao norte do Vale do Ródano, tendo também como referência a apellation exclusiva Chateau-Grillet, vizinha à primeira. A aldeia de Condrieu está situada numa curva do rio Ródano. A palavra vem da expressão francesa “coin du ruisseau”, canto do riacho. Conforme reportagem da Revista Adega, “o solo é ácido, com grande capacidade de acumular e reter calor, predominando granitos e rochas metamórficas da família dos gnaisses, com alguns depósitos de loess. As fissuras ricas em argila incentivam as raízes das videiras a se aprofundarem. O substrato, embora não muito espesso, é sustentado pelos terraços, o que permite a formação de um solo mais rico em matéria orgânica” (https://revistaadega.uol.com.br/artigo/descubra-os-segredos-da-vitivinicultura-heroica-de-condrieu.html).
Hoje teremos como parâmetro um Condrieu de E. Guigal, produtor reconhecido por seu perfeccionismo, não obstante produza vinhos em diversos terroirs da França. E. Guigal é sinônimo de qualidade e, bem por isso, nosso presidente Jorge Ducati ousou trazer à mesa um Condrieu de safra 2010, colocando à prova a longevidade deste branco, inesperada mas muito possível, bem como sua capacidade de evolução em garrafa.
Nos melhores Viogniers, são esperados aromas vigorosos e sabores exuberantes de madressilvas, pêssegos maduros, melões brancos, lichias, casca de laranja fresca, às vezes até gardênias. O Guia Wine Folly, de Madeline Pucket e Justin Hammack, classifica a Viognier entre os brancos encorpados. Tal corpo deriva da graduação alcoólica que o vinho dessa varietal pode atingir, às vezes acima de 14%. Mas a produção é difícil, por sua longa maturação, sendo uva que gosta de sol, mas não necessariamente de climas muito quentes, sob pena de se perder a pouca e preciosa acidez das uvas, traduzindo-se em vinho enjoativo e desequilibrado. O vinho aceita bem a madeira e, por todas as razões acima expostas, pode ser visto como “vinho de vinícola”, ou seja, quem não tiver muita habilidade de agricultura e vinificação, melhor não arriscar.
Degustaremos, um espumante gaúcho, brancos tranquilos uruguaio, italiano, brasileiro, do Languedoc, de Condrieu e um laranja chileno, finalizando com um brandy digestivo francês.
Espumante Garibaldi Viognier Brut – Serra Gaúcha, Brasil – ABV 12%.
• Espumante 100% Viognier, produzido pelo método charmat, com acidez total de 6,4 g/L e açúcar residual de 12,0 g/L.
• Coloração amarelo palha esverdado, revelando perlage de borbulhas finas e persistentes. Boa intensidade aromática com perfil de frutas frescas como maçã verde e melão, e notas florais delicadas. No paladar, leve e equilibrado, com bom frescor e cremosidade.
Establecimiento Juanicó – Don Pascual Reserve Viognier 2024 – Canelones, Uruguai – ABV 12%.
• Apresenta uma cor ligeramente ámbar brillante. No nariz, revela notas intensas de damasco, pêssego e frutos tropicais e uma suave nota floral de jasmim. Na boca, se nota uma sensação untuosa que desenvolve grande volume, com uma acidez ajustada. A combinação do volume e da acidez oferece um final longo e ameno.
• Ótima opção para servir com canapés, carnes brancas grelhadas, massas com molhos cremosos, risoto de frutos do mar e queijos leves.
• Sem notícia de passagem por madeira.
Cantine Bettona I Corali Viognier 2023 – Umbria IGP. Itália – ABV 12,5%.
• O clima mediterrâneo, com verões quentes e invernos amenos, aliado a solos ricos em minerais, favorece o cultivo da uva Viognier. As uvas são colhidas manualmente e passam por um processo de vinificação cuidadoso, com fermentação em tanques de aço inox, garantindo frescor e pureza dos sabores.
• De tonalidade amarelo-palha brilhante, com reflexos esverdeados, no olfato, destaca-se com notas florais e frutadas, como pêssego e damasco, acompanhadas de sutis toques de ervas e especiarias. No paladar, é leve, fresco e sedoso, apresentando frutas de caroço, como a pera, e nuances de citrinos, com uma acidez que confere elegância ao vinho. A finalização é persistente, com um toque seco e frutado.
• Ideal para acompanhar pratos leves, como saladas frescas, frutos do mar grelhados e aves assadas.
Amitié Oak Barrel Viognier 2023 – Serra Gaúcha, Brasil – ABV 12%.
• Vinho branco aromático com notas frutadas, lembrando pêssego e tangerina e um delicado toque de pétala de rosas brancas. Excelente equilíbrio entre acidez e untuosidade. A passagem em barrica de carvalho francês por 4 meses lhe confere complexidade e um toque amanteigado.
• Harmoniza com pratos leves, saladas, frutos do mar e peixes.
• Primeiro vinho branco brasileiro a conquistar medalha de ouro, com 95 pontos, no concurso Decanter World Wine Awards.
Paul Mas Viognier Reserve 2023 – Vale de Hérault, Languedoc, França – ABV 13,5%
• Produzido em solos predominantemente argilo-calcários, em clima mediterrânico, moderadamente quente, com influência dos ventos Mistral, Maran e Tramontane.
• Cor dourada. Aromas de pêssego maduro e lima, com notas florais, de mel e baunilha. Amplo em boca, redondo, equilibrado pela acidez fresca. O final de boca é longo, com notas tostadas. Boa tipicidade e caráter.
• Harmoniza com cozinha indiana de mar; guacamole; risoto com lagostins e açafrão; queijos cremosos (Brie, Camembert), com pouca maturação.
• Passagem por três meses de 85% do vinho em tanques de aço inox e 15% em barricas de carvalho francesas.
Etienne Guigal Condrieu 2010 – Condrieu AOC, Vale do Ródano (Norte), França. ABV 14%.
• Uvas produzidas em vinhas de trinta anos no solo de granito desintegrado e areia granítica (arzelle) das encostas íngremes de Condrieu, com colheita manual na safra de 2010, que é considerada uma das melhores e mais concentradas da história recente, apesar dos baixos rendimentos. Fermentação realizada sob controle rigoroso de temperatura (aprox. 18°C) em cubas de aço inoxidável, com fermentação malolática 100% concluída. Amadurecimento por aproximadamente 8 meses em cubas de aço inox antes de ser engarrafado.
• No visual, amarelo dourado brilhante e límpido. Com aroma intensamente perfumado, notas proeminentes de pêssego, damasco, madressilva, lichia e manga. No paladar é encorpado a médio-encorpado, com acidez baixa, mas compensada por uma mineralidade marcante e textura viscosa/oleosa.
• Harmonização recomendada com foie gras, lagosta, pratos da culinária tailandesa (com especiarias suaves) e queijos de cabra.
Siegel Naranjo Viognier 2024 – Valle de Colchagua D.O., Chile- ABV 12%.
• Vinhedo plantado em 1999 em região de clima influenciado pelo frescor costeiro, com solos profundos, do tipo franco-argiloso, altamente mineralizados. Na vinificação as cascas permanecem em contato com o suco por 3 semanas.
• De cor laranja-dourado, com notas de especiarias no olfato, frutos secos e flores brancas, com toques de pêssegos secos. Na boca é volumoso e refrescante, com boa estrutura e acidez equilibrada.
• Repousa por 8 a 12 meses em barris de carvalho francês de quinto uso (com variação pela avaliação da oxidação em cada barrica).
• Harmoniza com Peixes gordurosos, carnes ricas, queijos, aperitivos e sobremesas.
St-Rémy Extra Old (XO) – French Brandy – ABV 40%.
• Brandy francês muito tradicional (destilado de vinho), feito pela Maison St-Rémy, (fundada em 1886) com seleção de vinhos de uvas francesas de diversas regiões, utilizando castas como Chardonnay, Pinot Noir, Merlot, Cabernet Sauvignon, entre outras.
• Estágio em pequenas barricas de carvalho francês (limousin) intensamente tostadas. O selo XO indica um envelhecimento prolongado que confere complexidade e suavidade.
• No perfil sensorial, tem cor âmbar luminosa, com reflexos dourados e mogno. No aroma, notas ricas de carvalho, baunilha, frutas secas (figos e tâmaras), com um toque sutil de mel e especiarias doces (canela). No paladar é complexo e redondo. Predominam sabores de pão de mel, frutas maduras e notas amadeiradas. O final é longo e levemente picante.
• Harmonização com chocolate amargo, charutos ou queijos intensos.
Reserva
Dois vinhos tintos de produção do confrade Jorge Ducati, em Mariana Pimentel. Como sempre produzidos com carinho e cuidado, sendo vinificados por Vilmar Bettú. Poucas garrafas produzidas, muita personalidade e expressão do terroir em cada safra:
• Assemblage 2017 (Merlot 58%, Barbera 20%, Sangiovese 20%, Garganega 2%), ABV de 12°, apenas 339 garrafas produzidas;
• Merlot 2022, ABV de 12°, apenas 122 garrafas produzidas.