Seguindo a senda exploratória iniciada recentemente, nossa SBAV/RS reuniu-se em 12 de dezembro de 2025, Reunião de Fim de Ano, com degustação de vinhos exóticos, beneficiando-se das viagens dos confrades Leandro Rovani e Beatriz Weber à Europa, além de dois vinhos gentilmente oferecidos pelo confrade Renato Petersen, sendo um da China e outro do Japão. Tivemos 14 confrades para uma harmonização dos vinhos com uma paella campeira carinhosamente preparada pelo Chef Roberto Vianna. Segue o texto redigido por Leandro Rovani:
Vinhos Exóticos – Parte II
Os confrades das Quintas da SBAV-RS, que se reúnem às Sextas, gostam do vinho não somente pelo vinho, mas pelas experiências diversas que ele proporciona. Aprendi isso nesse tempo de convivência com estes fiéis amigos. Nada mais justo, então, do que encerrar 2025 oficialmente provando vinhos que, para nós, podem ser considerados exóticos. Afinal, não é todo dia que temos à mesa um vinho natural tcheco, um espumante dinamarquês, um vinho raro garimpado na Espanha, um branco japonês ou mesmo um vinho… chinês!!! Sim, daqui a dez anos poder-se-á quiçá dizer que o mundo está tomado por vinhos chineses mas, nesta degustação, creio que será a primeira experiência sino-vinícola para todos da mesa, em razão do vinho generosamente trazido pelo Confrade Petersen (nota: vide degustação de 9 de março de 2023).
A ideia da degustação é ampliar nossos horizontes olfativos e gustativos no mundo do vinho por meio dessas experiências incomuns. Os tintos foram um pouco privilegiados, pelo fato de que o prato à mesa será uma paella campeira. Apresentaremos estes rótulos, provavelmente na seguinte ordem:
Espumante RH Nature Barrica 2014 – Paraná, Brasil – ABV 11,5%.
- Espumante 100% Chardonnay, produzido pelo método tradicional, que bateu grandes espumantes nacionais em comparativos da imprensa especializada. O vinho permaneceu em barris de carvalho americano por 24 meses. Engarrafado para tomada de espuma em abril de 2016, ficou adormecido em contato com as leveduras.
- O vinho base passa por madeira, o que traz maior textura e volume de boca, mas não interfere nos sabores de frutas brancas e cítricas, que envolvem todo o conjunto. Os 48 meses em contato com as leveduras trazem cremosidade e persistência. Tem acidez vibrante e final com toques de abacaxi, de limão siciliano e de frutos secos (Revista Adega – 2020).
- nota de degustação: diferentemente da garrafa aberta recentemente, desta vez o espumante apresentou-se amargo, estranho. Talvez problema na garrafa ou na barrica.
Espumante Bognæs Vingaard – Sparkling Solaris – Dinamarca – ABV 12%.
- A Bognæs Vingaard (vinícola) é uma pequena e charmosa vinícola dinamarquesa localizada na região de Tuse Næs, perto de Holbæk, conhecida por seus vinhos brancos de uvas híbridas como Solaris e Sauvignon Gris, oferecendo vinhos com notas de natureza e caráter, com experiências de degustação e passeios abertos ao público, sendo parte de uma área protegida com vida selvagem e trilhas.
- Localização: Tuse Næs, Dinamarca, em uma área natural protegida chamada Bognæs, com paisagens de fiorde e florestas.
- Vinhos: Produzem vinhos brancos com uvas resistentes ao clima frio, como Solaris e Souvignier Gris (Souvignier Gris), resultando em vinhos como “RO” e “KAOS”, que são descritos como potentes e complexos.
- nota de degustação: espumante surpreendente, excelente, algo nunca visto. A uva Solaris presta-se muito bem à vinificação, como
Grace Winery – Grace Koshu 2023 – Yamanashi (Monte Fuji), Japão – ABV 12% (?).
- Fundada em 1923 em Katsunuma, esta vinícola familiar fundada por Chotaro Misawa é agora administrada por seu sucessor de quarta geração, cuja filha já é responsável pela produção de vinho. A vinícola principal ainda está em Katsunuma e produz principalmente Koshu, em altitudes acima de 400 m.
- Amarelo-limão pálido com um tom esverdeado brilhante. Os aromas refrescantes de toranja, pêssego branco, pera e flores brancas, misturados com os de frutas maduras como melão e lichia, adicionam complexidade e profundidade ao vinho. No paladar, acidez agradável com um ataque suave. Frutas concentradas se expandem no paladar, dando a impressão de corpo. O final permanece com uma acidez suave. Um vinho bem equilibrado, com um sabor delicado, porém refrescante, e frutas ricas (Wine n Things). Sem passagem por carvalho.
- nota de degustação: vinhos leve, aliás muito leve, claro, muito muito agradável, mais para o mineral. Um sucesso.
El Lince Rufete Blanco 2022 – Vino da La Tierra de Castilla y León, D.O.P. Sierra de Salamanca, Espanha – ABV 11,5% (?).
- Casta rara, quase extinta, também chamada de Verdejo Serrano, oriunda da área montanhosa de Sierra de Francia, na província de Salamanca, perto da fronteira com Portugal (Wine Grapes – J. Robinson, J. Harding e J. Vouillamoz).
- Os vinhedos são orgânicos e de baixa produção, alguns com mais de 100 anos, situados entre 400 e 800 metros acima do nível do mar. Os solos arenosos provenientes da rocha granítica circundante conferem aos vinhos elegância e um final longo, enquanto os solos argilosos provenientes do xisto proporcionam estrutura e mineralidade.
- Orgânico e com mínima intervenção, 100% Rufete Blanco. Sem passagem por barrica. Apresenta-se como um Albariño complexo e cremoso, com notas de frutas tropicais e brancas, cítricas e uma base mineral. Final maduro e amplo com um sutil toque salgado.
- nota de degustação: vinho muito diferente, com baixa acidez, tons mais para o mineral. Excelente.
Milan Nestarec Barvířka 2023 – Moravia, Tchéquia – ABV 10,5%.
- Corte de Dornfelder, Zweigelt e um mix de uvas brancas, este tinto natural elaborado pela Milan Nestarec, uma das vinícolas mais importantes da Morávia, quase na fronteira com a Áustria, onde são produzidos 95% dos vinhos tchecos, é um vinho fresco e pouco alcoólico, perfeito para o verão. Aguardou seu ponto ideal de engarrafamento, em abril de 2024, em grandes tonéis de carvalho de três mil litros.
- Tem taninos muito brandos, cor profunda, baixa graduação alcoólica, sendo um vinho fácil de beber.
- nota de degustação: vinho menos claro, isto é, um pouco turvo, o que não é surpresa para um vinho natural. Depois de respirar um pouco ficou mais palatável. Bom vinho, considerando a proposta. Valeu a experiência.
Dynasty Winery – China – ABV 12%.
- Fundada em 1980, a Sino-French Joint-Venture Dynasty Winery Ltd. é a segunda joint venture sino-estrangeira estabelecida na China e a primeira em Tianjin. A joint venture foi criada pelo governo chinês, em associação com a produtora francesa de brandy Remy-Martin e a Organização de Investigação de Comércio e Tecnologia Internacional de Hong Kong. Em 1980, produziram 100.000 garrafas de vinho. Em 1998, a empresa tornou-se a maior produtora de vinhos da Ásia, aumentando a produção para 22,46 milhões de garrafas de vinho e brandy. Em 2007, a produção total de vinhos e brandies atingiu 54 milhões de garrafas.
- Na China, os vinhos Dynasty são destinados a banquetes de Estado e também são utilizados por cerca de 231 embaixadas e consulados da China ao redor do mundo há muitos anos. Há exportações para mais de vinte países da América, Ásia e Europa.
- Não há muitos dados técnicos sobre o vinho e, no próprio rótulo, há apenas a referência de ABV e a informação de que o vinho “é feito com castas de uva mundialmente reconhecidas”.
- nota de degustação: ótimo vinho, no estilo bordalês.
Paul Lehrner Blaufränkisch Ried Dürrau 2017 – Mittelburgenland D.A.C., Áustria ABV 14%.
- Vinho constantemente reconhecido como um dos melhores Blaufränkisch de seu país, é produzido em terroir privilegiado. O teor excepcionalmente alto de argila no solo argiloso-loessico pesado faz do vinhedo Dürrau um dos mais importantes para a Blaufränkisch (Lemberger).
- Cor rubi granada escura, com reflexos violetas. Aromas de cereja madura, ameixas secas, um toque de raspas de laranja cristalizada e especiarias amadeiradas. Boa complexidade, com notas sutis de tabaco, geleia de frutos silvestres maduros.
- Envelhecido em barricas, tem uma estrutura tânica bem integrada. Impressiona pela sua persistência e possui substância para um longo envelhecimento.
- nota de degustação: para muitos o melhor da noite. Médio corpo, aromático.
Pannonhalmi Apátsági Infusio 2023 – Pannonhalma D.O.P., Hungria – ABV 14,9%.
- 60% Merlot, 40% Cabernet Franc, vinhas de vinte anos. Maturação em barricas de 228 litros, de primeiro e segundo uso – principalmente húngaras e, em menor escala, americanas – por 19 meses.
- Produzido na Abadia de Pannonhalma, de longa tradição monástica, é um tinto dos mais prestigiados da Hungria. Encorpado, denso, com taninos firmes, notas de frutas escuras maduras, baunilha, alcaçuz, chocolate e terra úmida. Provém do vinhedo mais notável da vinícola, sendo um corte bordalês sério, elegante e com grande potencial de guarda.
- nota de degustação: um dos melhores da noite. Elegante.
Fonseca Vinho do Porto Ruby – Portugal – ABV 20%.
- Tinto fortificado doce elaborado a partir de diversas castas típicas do Douro, com estágio de 3 anos em tonéis de madeira. Repleto de frutas vermelhas e negras maduras, acompanhadas de notas florais, balsâmicas e de especiarias doces, que se confirmam no palato. Estruturado e intenso, tem acidez refrescante, taninos numerosos e firmes e final cheio e persistente, com toques de ameixas, de violetas e de chocolate (Revista Adega – Provado em Dez 2022).
Cadão, Porto Tawny – Portugal – ABV 19%
– Elaborado e engarrafado por Mateus & Sequeira Vinhos, degustado ao final dos trabalhos acompanhando a sobremesa. Excelente.
Reserva, aberto ao final dos trabalhos:
Belussi Belpoggio Ciliegiolo Di Paolo 2022 – Toscana I.G.T., Itália – ABV 14%.
- Elaborado com uvas 100% Ciliegiolo de Castelnuovo dell’Abate (Siena), com essa uva que normalmente é utilizada como parte minoritária dos Chianti, sem passagem em madeira, de cor vermelho rubi de grande intensidade, possui aromas jovens e delicados de cerejas negras. Ao paladar se reconhece a cereja (cilegia, em italiano).
- Em boca, médio corpo, taninos equilibrados, com acidez refrescante e elegante, notas herbáceas e especiadas.
- nota de degustação: Muito bom, de fato os tons de cereja são bem perceptíveis.