As latitudes mais setentrionais da Europa já produziam vinhos na Idade Média e mesmo antes. A chamada “Pequena Idade do Gelo” e mudanças econômicas causaram o abandono dos vinhedos da Bélgica e Normandia, em meados do século XVIII. O aquecimento do final do século XX e a paixão de amantes do vinho trouxeram de volta os parreirais, e as Quintas, sempre na vanguarda, degustou estes vinhos exóticos na reunião de 5 de maio de 2016, com a casa cheia.
A Bélgica já tem mais de cem hectares de vinhedos, em geral de castas mais adequadas para clima frio com Muller-Thurgau, Auxerrois, Pinot Gris e Pinot Noir. A produção se divide entre Flandres e Valonia, alcançando em média 500.000 litros por ano. De recente viagem pelo país, os confrades Jandyra e Ducati conheceram os vinhos, e trouxeram dois exemplares:
1. Entre-Deux-Monts Wiscoutre methode traditionelle brut, Flandres, 12,5°. Ótimo espumante, das cepas Kerner, Chardonnay e Pinot Noir; bem seco, um pouco amargo, original; 18 euros.
2. Genoels-Elderen, Chardonnay Blaauw 2014, Flandres, 13°. Surpreendeu a todos pela qualidade, extremamente agradável; 19 euros.

Depois vieram os vinhos da Normandia. A história é interessante. No congresso Terroir 2014, em Tokai, Hungria, o confrade Jorge Ducati conheceu pessoalmente o produtor normando Gerard Sansom, cujos vinhos já havia degustado em 2011. Surgiu uma amizade, e nesta viagem pela Europa em 2016 veio a oportunidade de visitar a vinícola Arpents du Soleil. Neste caso, Arpent é uma medida antiga de superfície de terras, e Soleil é o nome do lieu-dit, como já figura no mapa de Cassini ao tempo da Revolução Francesa, indicando a existência de um vinhedo. Gerard Sansom, muito atento, descobriu o fato e comprou as terras, abandonando seu ofício de notário e restabelecendo os vinhedos na Normandia. O local é uma pequena elevação de rochas calcárias, no meio da imensa planície silt-argilosa normanda (como informou Gerard em sua excelente preleção ao ar livre). São cinco hectares de vinhas das variedades Auxerrois, Muller-Thurgau, Pinot Gris, Pinot Noir, e outras em experimentação. A paisagem é maravilhosa e a recepção também o foi, incluindo almoço típico harmonizado com os vinhos, após didática visita à cave. Toda a produção é envasada em garrafas de meio litro, muito convenientes e práticas. Os vinhos custaram 11 euros cada:
3. Arpents du Soleil, Pinot Gris 2010 Vin du Pays du Calvados IGP, 13,5°. Verdadeiro Pinot Gris, excelente.
4. Arpents du Soleil, Auxerrois 2009 VPC IGP, 13,5°. Outro vinho gastronômico, muito bom.
5. Arpents du Soleil, Pinot Noir 2013 VPC IGP-Grisy, 12°. Muito bom, mostra o potencial de envelhecimento, pois deve melhorar com o tempo. Semelhante aos Pinots da Bélgica e Alemanha, secos e com menos fruta, se comparados aos da Borgonha. Segundo o produtor, os primeiros vinhos (tintos e brancos) são de 1998 e ainda estão evoluindo e seguem muito bons.

A seguir foi servido um tinto da região de Baden, Alemanha. Não é, reconhecemos, uma região muito fria, mas precisávamos de mais um tinto na degustação para contentar os apreciadores, e este veio a calhar:
6. Josef Michel, Spätburgunder 2012 trocken Alte Reben, 13,5°, Baden. Ou seja, um Pinot Noir de vinhas velhas. Bom exemplar, mostra até onde podem chegar os PN alemães, ou perto disto. Assunto a ser seguido em novas degustações. R$ 169 mais frete, mercado brasileiro (Weinkeller).

Finalmente, foi servido um vinho de sobremesa, trazido da origem há alguns anos:
7. Covey Run, Icewine Semillon 2006, Columbia Valley Reserve, 11°, Yakima Valley, Washington, EUA. Vinho do gelo em meia-garrafa; excelente, sem dúvida, com menos concentração se comparado a outros vinhos similares, como os vinhos do gelo tchecos degustados na semana anterior. Preço 20 dólares.