A reunião da SBAV/RS de 14 de novembro de 2025 foi organizada pelo confrade Jorge Ducati e teve como tema vinhos elaborados no Estado do Rio de Janeiro, mais especificamente na Serra Fluminense. Trata-se de uma nova região produtora em áreas de altitude, que graças ao método da dupla poda propiciam o aparecimento dos chamados “vinhos de inverno”. Sobre este método foi distribuído ao grupo o seguinte texto, adaptado da revista Adega:

dupla poda ou poda invertida altera o ciclo natural da videira, dirigindo o período de maturação da uva para o inverno, época em que há poucas chuvas no Centro e Sudeste do Brasil. Nesta região chove muito no verão, o que é muito prejudicial para a sanidade da videira e para a maturação das uvas. A técnica consiste no primeiro corte dos galhos da videira em setembro para formação de ramos e o segundo corte, para produção, em janeiro ou fevereiro. Após a poda de formação a videira brota, momento em que os pequenos cachos são removidos. A vinha cresce sem cachos, e uma segunda poda ocorre no verão, após o que a planta emite novos cachos. As videiras despertam em geral depois do Carnaval por meio do uso do fitormônio Dormex (cianamida hidrogenada), um estimulante cujo objetivo é quebrar a dormência e uniformizar a brotação das gemas, aplicado logo após a poda (tanto de formação quanto de produção). Assim, as fases de crescimento, maturação e colheita, que normalmente ocorreriam no período das chuvas, na primavera e no verão (de agosto a março), passam a acontecer no período de seca, no outono e no inverno (de abril a julho e às vezes até agosto). Esse é o segredo que permite o surgimento de vinhos finos de inverno de qualidade no Sudeste e Centro-Oeste do país, tanto em Minas Gerais, como em Goiás e São Paulo.

No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, é feita apenas a poda de produção, em agosto ou setembro, não sendo exigida a aplicação de Dormex.

 “Com o ciclo invertido, conseguimos as condições ideais de clima para a produção de uvas maduras e sadias, com dias ensolarados e secos, seguidos de noites frias”, explica o Dr. Murillo de Albuquerque Regina, que desenvolveu no Brasil a técnica de dupla poda após seu doutorado em Bordeaux, França.

Os vinhos apresentados foram os seguintes:

  1. Família Eloy, Cabernet Franc/Cabernet Franc Reserva 2024, 14,7°. Elaborado a partir de uvas de duas diferentes parcelas, proveniente de Inconfidência, Paraíba do Sul, RJ. Em comparação com os vinhos que seguiram, este foi o mais leve da noite, sendo de qualquer modo bem encorpado e com alta graduação alcoólica. Muito bom. Nota-se, pela informação do contra-rótulo, que foi produzido e engarrafado pela Vinícola Inconfidência (vinho seguinte).
  2. Vinícola Inconfidência, João Paulo Syrah/Sauvignon Blanc 2022, 13,9°. Original corte com predomínio da uva tinta, o que se nota na cor bastante escura. A presença da Sauvignon Blanc, talvez, contribui para a maciez do gosto, diminuindo o retro-gosto amargo tão típico, para muitos degustadores, dos vinhos de inverno, o que não é defeito, apenas uma característica. Vinho muito bom.
  3. Vinícola Tassinari, Syrah 2022, 14,8°, de São José do Vale do Rio Preto, RJ. Muito encorpado, ótimo vinho desta casta que, até o momento, é emblemática dos vinhos de inverno no Brasil.
  4. Guedes Vinícola, Fattoria Vinhas Altas, Uberto Molo Syrah 2023, 13,5°, de Nova Friburgo, RJ. Foi o vinho menos alcoólico da noite, mostrando a que graduações podem chegar os vinhos de inverno. Para a maioria dos confrades foi o melhor da degustação.

Como espumante de entrada tivemos um vinho muito original, o Vita Eterna Orange de Noir 2022, 12,4°, de Pinto Bandeira, RS. Aqui temos, ao que parece, um experimento no qual ao vinho base de Pinot Noir se acresce um vinho de Chardonnay macerado com as castas, de onde vem a palavra “Orange”. Como experimento é válido, mas como vinho foi muito criticado por todos os confrades, que não gostaram. Lembra, e com razão, o espumante Era dos Ventos Peverella Nature, elaborado no mesmo conceito e que nos deu, na SBAV, a mesma impressão.