A Pinot Noir é uma casta globalizada, mas que guarda suas manias. Uma delas, sustentam os amadores, é que seu terroir privilegiado é a Borgonha. Ou seja, fora dali, os vinhos até podem ser bons, mas já não têm a verdadeira tipicidade. Será verdade? Para testar a teoria, em 27 de setembro de 2012, para treze confrades, o associado Jorge Ducati procurou vinhos de diversos terroirs, em degustação às cegas (texto distribuído na sessão):
São servidos seis vinhos.
Dois são da Borgonha, de parcelas situadas a poucos metros uma da outra; a diferença é que uma parcela fica do lado “bom” da RN74, e a outra parcela, do lado “simples”, mais próximo à planície.
Dois vinhos são de Portugal, sendo um do Douro, de área próxima ao Pinhão, zona de verão tórrido, e outro, da região de Beiras, próximo a Anadia, ou seja, na parte média da região, com respeito à elevação e à distância ao Atlântico.
Dois vinhos de Oregon, Estados Unidos. Um é de um prestigiado produtor local, e ademais, formado em escola de enologia da Borgonha, onde desposou uma moça local, filha de português e brasileira; vinhas em terras de colinas do vale de Willamette. O outro vinho vem de parcelas na planície do mesmo vale, próximas ao notável museu aeroespacial; o vinho porta o nome do famoso avião “Spruce Goose”, exposto no museu.
Para cada par de vinhos, um é de preço mais alto, e outro é de preço mais baixo (fator maior que dois). Para cada par de vinhos, um é de região mais elevada, e outro é da planície. Dentro de cada categoria, procurou-se trazer vinhos de níveis semelhantes, na medida do possível.
Pedia-se aos presentes apontar o melhor vinho, e o Pinot mais típico, dentro da noção de que um Pinot típico é um da Borgonha, e contando com a memória gustativa destes degustadores veteranos.
Os vinhos foram os seguintes, na ordem de degustação:
1. Bergstrom Winery, De Lancellotti Vineyard 2005, Willamette Valley, Oregon, 14º, US$ 58,46
2. Evergreen Vineyards, Spruce Goose Reserve 2008, Willamette Valley, Oregon, 12,8º, US$ 23
3. Real Companhia Velha, Quinta de Cidrô 2007, Vinho Regional Duriense, 14º, 10 euros
4. Campolargo 2002, Vinho Regional Beiras, 14º R$ 133
5. Domaine J. Cacheux, Vosne-Romanée AOC 2006, 13º, magnum, R$ 395,60
6. Domaine J. Cacheux, Bourgogne AOC “Les Champs d’Argent” 2008, 12,5º, R$ 102,64
Com relação ao melhor vinho, quatro degustadores preferiram o quarto vinho, o português Campolargo; três, o primeiro de Oregon, e dois degustadores, o Vosne-Romanée. O português de Beiras, surpreendentemente, também foi julgado o Pinot mais típico, embora fôsse vinho de bastante cor e corpo. O Vosne-Romanée é um belo vinho, elegante e um Pinot típico ao estilo de seu terroir. Também destacou-se o Bergstrom, excelente vinho com cor, aroma e gostos muito apreciados.
Esta degustação foi instrutiva sob vários aspectos:
a) cada região apresentou dois vinhos de níveis diferentes, e os mais apreciados foram, em todos os casos, os vinhos mais caros;
b) com exceção do Borgonha genérico, o sexto vinho, os produtos foram julgados ótimos e semelhantes;
c) notou-se, mais uma vez, uma clivagem entre os degustadores: os que preferem vinhos “encorpados”, ao estilo dos chilenos e argentinos, e os que preferem vinhos “elegantes”, ao estilo dos franceses.
Encerrando a noite, foi feito brinde com o espumante Quinta Don Bonifácio, Habitat, Brut Rosé Champenoise, 100% Pinot Noir (Serra Gaúcha – Caxias do Sul), 12º, R$ 49,20. Ótimo produto desta boa vinícola da Serra.