No dia 22/06/2006 os confrades das quintas-feiras vivenciaram uma inesquecível Noite Espanhola, mote para a reunião organizada pelos confrades Paulo Mazeron e Magali Barberena, com o título “O Rio Duero e seus Vinhos”. A reunião primou pela impecável organização. Inicialmente foi feita pelo confrade Mazeron uma breve explanação (com fornecimento de apostila ilustrada, elaborada para a ocasião) sobre a produção vinícola espanhola, salientando a DO Ribera Del Duero. Depois foi realizada a degustação de três vinhos espanhóis especialmente selecionados na recente viagem eno-gastronômica do casal à Espanha:


La Guita: jerez tipo Manzanilla, Hijos de Rainera Perez Marín,15%, produzido com uvas Palomino Fino na cidade de Sanlúcar de Barrameda, próximo ao mar. De cor muito pálida, aromático, ligeiro e seco. Credita-se à suposta ação das brisas marítimas na cidade de Sanlúcar um ligeiro toque salgado que pode ser percebido em seu sabor.


Pintia 2003 (DO Toro, Bodegas y Viñedos Pintia, San Román de Hornija, Valladolid), 15%. Elaborado 100% com Tinta Toro, permanece por 13 meses em barricas e o tempo restante até completar 3 anos, em garrafa.  De cor cereja escura, com bordas levemente azuladas, tem aromas de frutas secas, madeira, fumo. No palato é potente, estruturado, untuoso, com taninos maduros e boa persistência.


Vega Sicília “Unico” Reserva Especial 2006, (Bodegas y Viñedos Vega Sicília SA), o mítico vinho “que o dinheiro não compra”. Reza a lenda, que para o banquete do casamento do Príncipe Charles com Lady Diana, a Rainha Elisabeth teria solicitado à vinícola, caixas deste vinho para acompanhar o banquete real, e a lacônica resposta do gerente de vendas foi “só podemos fornecer duas…”. O exemplar degustado foi elaborado com uvas das safras 89, 90 e 94. De cor vermelho escuro límpido e brilhante, pouco alaranjado, com ricos aromas terciários, tânico, levemente ácido.


Após a degustação foi servida uma rica paella degustada com os vinhos da Ribera Del Duero DO como Prado Rey Roble, 2001, 13,5% (Real Sitio de Ventosilla), Protos, 2004, 13,5% (Bodegas Protos, Castilla y Leon) e Luiz Cañas Selecion de la Família, 1999, 14,5%, (Rioja) e Abadia Retuerta, Primicia 2002 (DO. Ribera del Duero). O jantar foi embalado por uma seleção musical com uma guitarra espanhola apreciada por todos.


Seguem alguns comentários sobre as Designações de Origem Ribera del Duero e Toro


O rio Duero, nascendo na região centro-norte  da Península Ibérica, corre por cerca de 570 km.  em território espanhol; ao ingressar em Portugal toma o nome de Douro, indo desaguar no oceano Atlântico entre as cidades do Porto e de Vilanova de Gaia, como um rio imponente e tranqüilo, com cerca de 600 m. de largura na embocadura.

Ao longo de seu curso,  situam-se diversas regiões produtoras de vinhos privilegiadas, tanto na Espanha, como em Portugal. Na Espanha especialmente a da DO Ribera del Duero, que se estende ao longo de 115 km. com   largura variável de até 35 km.

Um mosaico romano de 66 m2 com alegorias báquicas, considerado o mais bem conservado da Península Ibérica, atesta que a uva já era cultivada nessa região há mais de 2.000 anos; nessa época já existiam na Ribera del Duero normas sobre o cultivo das videiras; seguiram-se ao longo do tempo, períodos de auge e de decadência. Entretanto, os vinhos de uma forma geral eram claros, pouco encorpados, sem qualidades especiais que os destacassem. A ascensão meteórica que levou essa região ao topo da pirâmide de qualidade e de preços entre os vinhos da Espanha, ocorreu especialmente a partir de 1975, quando o potencial da região ficou evidenciado graças ao excelente vinho elaborado pela bodega Pesquera del Duero (Valladolid). Desde então, enólogos, investidores e empresas empregando novas práticas de cultivo, modernização tecnológica e rigorosos processos de controle, fizeram com que seus vinhos viessem a ser considerados entre ao melhores do mundo. Numerosas bodegas foram criadas a partir dos anos 80 com a constituição do Conselho Regulador da DO Ribera del Duero, no ano de 1982. Atualmente a DO tem uma superfície total de 17.000 hectares inscritos, abrangendo um total de 102 municípios da região de Castilla y Leon.

A climatologia da região tem grande influência sobre o ciclo vegetativo da planta e contribui decisivamente para a qualidade dos vinhos: pluviometria baixa com cerca de 450 mm/ano; verões secos, com temperaturas de até 40 oC e invernos longos e rigorosos com temperaturas chegando a -18 oC e mais de 2.400 horas de insolação. Os solos são predominantemente calcáreos e arenosos, com altitudes compreendidas entre  700 e 1.000 m.  sobre o nível do mar.

A principal variedade de uva cultivada é a chamada de Tinta del Pais, ou Tinta Fina, procedente do mesmo tronco da Tempranillo,   que proporciona cor aroma e corpo aos vinhos; outras variedades permitidas são a Cabernet Sauvignon, Merlot, Malbec, Garnacha e a branca Albillo, todas porem cultivadas em menor escala. A condução dos vinhedos é feita em arbusto ou em espaldeira baixa
A caraterística mais marcante dos vinhos  talvez seja sua longevidade: as melhores safras tem potencial de envelhecimento de até 25 anos em garrafa.

Para se ter uma idéia do prestígio dos vinhos elaborados por Vega Sicília, bastaria dizer que na prática eles não são vendidos, mas seria  melhor dizer, racionados. São mais de 3.500 clientes na Espanha e em outros 44 paises que tem suas quotas fixas de compra e mais outros tantos em lista de espera. Seus 250 hectares são cultivados predominantemente com tempranillo, que ocupa cerca de 80% do vinhedo; a mesma proporção é empregada no corte de seus vinhos, que é feito com uvas Cabernet Sauvignon e Merlot. A produtividade é limitada a 22 hectolitros por hectare; são elaboradas anualmente cerca de 90.000 garrafas do Vega Sicília Único, a grande estrela da Bodega e 170.000 do segundo vinho, o Valbuena 5º. Ano

A política da empresa é de só entregar o produto ao mercado, quando se encontra efetivamente pronto para beber; com este objetivo, o Único passa nove anos na adega, sendo dois em barricas novas de carvalho, cinco em barricas velhas e o restante em garrafa. Importância vital é atribuída às barricas, que aliás são feitas na própia bodega.

Quanto à DO Toro, também as origens se perdem no tempo, sendo o cultivo da uva anterior à ocupação romana; na idade média, seus vinhos receberam uma série de privilégios reais; no séc. XIV em Sevilha era proibida a comercialização de qualquer vinho salvo os do Toro e no séc. XIX grandes quantidades eram exportados para a França para suprir a deficiência causada pelo ataque da Filoxera.

A DO Toro foi criada em 1987, tendo hoje uma área de 8.000 ha. de  vinhedos, tendo se tornado também uma região de grande desenvolvimento nos últimos anos; a uva mais cultivada é uma variedade autóctone  chamada Tinta de Toro, semelhante também à Tempranillo, mas possuindo certas características próprias. Também estão autorizadas a Garnacha e variedades brancas como a Verdejo e a Malvasia. Os vinhedos se situam em altitudes de 650 a 700 m. com precipitações anuais  entre 350 e 400 mm.

A partir dos anos 70, com a chegada de profissionais de grandes empresas, a região vem tendo uma verdadeira ressurreição.

A própria Vega  Sicília está investindo na região da DO Toro, onde possue 96 hectares de vinhedos para produção do vinho chamado Pintia elaborado a 100% com a uva Tinta de Toro.

Uma curiosidade: na localidade de Pintia, que dá o nome ao vinho,   estão sendo procedidas escavações em um grande sítio arqueológico, com  vestígios da civilização pré-romana dos Vacceos que habitaram a região por volta do séc. III AC.