Há cerca de 30 anos, vinho espanhol de alta qualidade era sinônimo de Rioja. Havia, claro, o Vega Sicília na Ribera del Duero, mas era um caso isolado. A Galícia era conhecida pelo excelente branco Albariño e o Penedés, perto de Barcelona, pelo famoso espumante Cava. Naquela época, muitas outras regiões produziam vinhos, mas eram vinhos mais simples, principalmente para consumo local. Acredito que em nenhuma outra parte do mundo tenha havido mudança maior nesse aspecto do que na Espanha, com o surgimento de tantas novas regiões que hoje produzem inúmeros grandes vinhos.

Em primeiro lugar veio a própria Ribera del Duero, com o surgimento de ótimos produtores animados pelo sucesso do Vega Sicília, a começar pelo famoso Pesquera. Em seguida, um fenômeno se repetiu várias vezes em diversas regiões importantes da Espanha: estimuladas pela valorização dos vinhos e pelo aumento de preços das regiões mais consagradas, as regiões vizinhas foram melhorando cada vez mais a qualidade de seus vinhos. Foi assim com a Navarra, vizinha da Rioja, e com Toro, vizinha da Ribera del Duero, cujos vinhos melhoraram extraordinariamente. Hoje, ambas as regiões produzem vinhos ao nível dos melhores do país. Um caso à parte foi o Priorato, onde a produção de vinhos de altíssima qualidade começou há cerca de vinte anos, graças ao talento e à paixão de dois homens: Alvaro Palácios e René Barbier (do Clos Mogador), que descobriram que podiam fazer maravilhas com as uvas Garnacha de vinhas de 80 a 100 anos. O sucesso do Priorato, que até então produzia vinhos apenas para consumo local, foi enorme e explosivo, e a região se tornou a grande sensação da Espanha.

Mais recentemente o fenômeno do “vizinho” voltou a se repetir, com o surgimento da ótima região de Montsant, próxima ao Priorato, que hoje também produz alguns grandes vinhos como o Laurona e o Cabrida. Em seguida, o gênio de Alvaro Palacios se manifestou novamente, desta vez na nova e alta região de Bierzo, no norte da Espanha, perto de León. Ali Alvaro Palacios já está produzindo grandes vinhos e fazendo escola, utilizando velhíssimos vinhedos da casta local Mencia, que estava ameaçada de extinção na região e que foi resgatada pelo talentoso enólogo. Como se vê, já não é mais somente a Tempranillo que tem dado origem aos grandes tintos espanhóis. E, quando o assunto é Espanha, isto não é tudo: existem ainda diversas outras regiões produzindo belos vinhos, como Somontano, ao pé dos Pirineus, onde predominam as castas francesas; e Costers del Segre, também perto do Priorato mas produzindo vinhos um pouco mais leves e bastante modernos.

Um novo movimento começou muito recentemente: a produção de vinhos de qualidade nas regiões mais meridionais do país, e não apenas de Madri para o norte. Em áreas como La Mancha, Jumilla e Alicante, por exemplo, alguns produtores inovadores têm conseguido produzir vinhos de excelente relação qualidade/preço, e os grandes vinhos não devem tardar a surgir. E até mesmo na ilha de Mallorca, a maior das Baleares, surgiu um produtor com grandes vinhos, o Anima Negra, que utiliza principalmente algumas raras castas locais. É por isso tudo que a Espanha é hoje o paraíso do amante de vinhos, encantando todos aqueles que se dispõem a descobrir suas muitas maravilhas.

Em 24 de abril de 2008, em reunião coordenada pelo Mazeron, foram degustados vinhos espanhois de diferentes regiões:


Cava Brut Vintage Cristalino 2003 Penedés R$54,05 

Castillo de Liria 2005  Valência R$ 18,00


Mencía Luna Beberide 2004   Bierzo  R$ 55,16


Más de la Plana GR Torres CS 2002 Penedés  R$ 120,70


Pesquera Reserva 2002   Rib. Duero  R$189,05

Os melhores vinhos da noite foram o Más de la Plana e o Pesquera.
O vinho da região de Bierzo destacou-se também pela tipicidade marcante da uva Mencía, uva esta pouco conhecida entre nós.